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E as famílias, como estão?
Angústia pré-eleitoral é isso: o país dividido, todo mundo com medo, ansioso com o resultado e com o que vem depois dele.
Por Nelson Mendonça Neto, psicólogo e psicanalista 4 min de leitura
Pergunto de verdade. Porque, por aqui, o clima anda pesado.
Angústia pré-eleitoral é isso: o país dividido, todo mundo com medo, ansioso com o resultado e, talvez mais ainda, com o que vem depois dele. Tenho amigos que votam no B e, a maioria, no Lula. E o que eu vejo, de um lado e de outro, é gente cansada.
Tem profissional querendo se posicionar. Tem gente que só queria sentar com a família, ter um encontro digno, uma conversa boa, um debate de verdade. Mas o que acontece na maioria das vezes? Discussão acalorada. A pessoa levanta da mesa com o estômago revirado e a sensação de que perdeu alguém, mesmo com todo mundo ainda vivo.
O narcisismo das pequenas causas, não é, Dr. Freud? Gente que divide a mesma casa, a mesma história, às vezes o mesmo sobrenome, se estranhando justamente pelo pouco que separa um do outro. Esse velho, que eu amo, estava além do seu tempo. E continua.
Mas o que fazer num cenário tão polarizado e, sejamos sinceros, tão instigado pelas próprias mídias?
Pensa comigo. A polarização nasce de um medo enorme, e esse medo é colocado na gente. Falo disso no meu e-book Massa de manobra. E não, não estou falando de um partido específico: o neuromarketing está sendo usado por todos.
E isso não é só nosso. Essa onda de agressividade e de sufocamento dos grupos minoritários cresce no mundo inteiro. Na Austrália, sobem os índices de cidadãos (e aqui digo os cidadãos australianos, não os nativos, nem os migrantes, nem os expatriados) que desejam que os diferentes sejam expulsos ou escanteados, para que o bem-estar de uma população específica seja conservado. Por trás disso tem um narcisismo enorme, em cada um desses grupos: só um grupo pode sobreviver, só um grupo é bonito, só um grupo merece amor e carinho.
E aqui vem a parte que mais me entristece. A gente foi criado numa cultura cristã, independentemente da crença de cada um, que ensina a amar o outro como a si mesmo. Se o outro é parte de nós, querer que uma parte seja recalcada1 é como ter um corpo suicida. Só que não é assim que a coisa funciona.
O recalcado sempre volta. Na civilização não é diferente, até porque ela é feita de vários de nós.
O recalcado sempre volta. Quer ver? Repara como aquele seu ex sempre dá um jeito de retornar, encarnado em outra pessoa. Na civilização não é diferente, até porque ela é feita de vários de nós. Vivemos uma grande repetição: alguém lá no topo tenta controlar a nossa vida, e o mais fácil é só obedecer.
Então, o que fazer com tudo isso, inclusive no domingo, na mesa de família?
Respirar. Respirar fundo. Lembrar que quem está do outro lado da mesa também está com medo, só que de outra coisa. E entender que, se não for do jeito que a gente quer, ainda dá para florescer de outras maneiras. E, por favor, sem romantizar a flor que nasce no meio do asfalto. Ela é uma guerreira, sim, mas ninguém deveria passar por isso para ser quem é.
O jeito é seguir pensando, virar as esquinas que der para virar e realizar o desejo de ser quem a gente é. E, já que falei dos grupos que essa onda quer escantear: aos amigos LGBTQIAPN+, estamos juntos. Eu levo como filosofia de vida o álbum Born This Way, e a garra da Lady Gaga, que colocou três anos de uma carreira bem-sucedida em jogo para espalhar uma ideia simples: ninguém rouba o espaço de ninguém, e todo mundo pode conviver junto.
“You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one”
— John Lennon, Imagine
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Recalque: na psicanálise, é o mecanismo pelo qual empurramos para o inconsciente aquilo que é insuportável para a consciência, como desejos, lembranças ou partes de nós mesmos. O que é recalcado não desaparece: volta disfarçado, em sintomas, repetições, sonhos e atos falhos. ↩
Nelson Mendonça NetoPsicólogo e psicanalista · CRP 19/3888
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