ColunaA vida como ela se diznelsonmendonca.com
O seu dedo podre tem os benefícios dele
Em uma semana, eles estão apaixonadíssimos. Eu, como psicanalista, fico de olho no que vem depois.
Por Nelson Mendonça Neto, psicólogo e psicanalista 3 min de leitura
Isso me faz lembrar das histórias de uma amiga. De vez em quando ela conversa com alguns rapazes e decide se relacionar. E eu sempre digo que é bacana se relacionar, até porque, quando a gente se relaciona, a gente se dá a oportunidade de se encontrar, de olhar como a gente mesmo se comporta.
Em uma semana, eles estão apaixonadíssimos. É um must na rodinha de amigos: ela contando sobre ele, que é um homem superinteligente, que faz tudo, que quer ajudar em tudo. Mas assim… eu, como psicanalista, fico de olho no que vem depois. Na minha cabeça, fico pensando: está entregando tanto, a troco de quê? Lógico que ela é superbacana, mas eu ficaria com um pé atrás numa paixão tão intensa em uma semana.
Pouco tempo depois, ela me conta que ele quer que ela se afaste de algumas pessoas. (Aí eu penso: eu bem que avisei… pra mim mesmo.) E, como bom amigo, digo: “Nossa, que estranho, né? Vocês tão tranquilos juntos, e ele fica assim tão inseguro. Pra quê?” Infelizmente, nunca vamos saber 100% o que se passa na cabeça do outro. Mas ela segue conversando com ele e diz que vai continuar tentando.
O que acontece é que esses relacionamentos tomam muito tempo de vida. Tomam o tempo com os amigos, com a família, nas reuniões, porque a gente acaba se preocupando, muitas vezes, com alguém que não vai se encaixar, e que, pelo menos na minha cabeça, já estava na cara desde o início. Ela, superaudaciosa. Ele, querendo controle. Já viu!
Todo sintoma tem um benefício secundário. Por isso é preciso muito desejo para sair da inércia dos relacionamentos difíceis.
Mas, quando eu escuto as histórias dela, eu escuto um padrão. Um padrão de homens que tentam controlá-la, e ninguém consegue. Só que a graça disso tudo é que os dois gostam desse jogo de gato e rato.
O que ela pode fazer? Uma análise bem feita.
Mas a análise, por si só, não é garantia de que ela vá ter bons relacionamentos. E, quando eu digo bons, digo relacionamentos tranquilos, que te permitem seguir suas metas de vida, em que vocês conseguem se conhecer, saber quem são, sem necessariamente entrar em conflito o tempo todo.
E assim… discussão todo casal tem, e é importante: atualiza o relacionamento. Mas tem um limite, e ele precisa ser visto.
Ela tem um dedinho podre. Mas não sei se ela está preparada para largar esse dedo podre. Todo sintoma, e o dedo podre é um sintoma, tem um benefício secundário. É isso. Por isso, é preciso ter muito desejo para sair dessa inércia dos relacionamentos difíceis.
Nelson Mendonça NetoPsicólogo e psicanalista · CRP 19/3888
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